quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Uma Pancada de Maravilhas

Fiz isso aqui pra me expurgar uns fantasmas da década de 1980. Sim, odeio praticamente tudo ao que se refere às músicas daquele período. Afinal, morei 18 anos ao lado de uma discoteca que só tocava música da tal década perdida. Inclusive algumas das que vou postar aqui eram algumas que me atazanavam pra dormir por certas noites. Tudo bem que curto hardcore oitentista, um Pixies aqui, um Gang of Four ali, só que aí são outros quinhentos.

Enfim, esse álbum aqui foi montado com a assesoria do Toledão e é um especial sobre bandas de um só sucesso. Na Gringolândia já existem diversas coletâneas deste gênero, onde as bandas são conhecidas como One Hit Wonders (maravilhas de uma vezada).

Algumas das bandas aqui presentes até chegaram a ter outros pequenos trunfos, mas nada como os hits compilados em Uma Pancada de Maravilhas. O foco são os anos 1980, só que pra dar uma pujança, tem coisa dos 1990 também. As três últimas músicas são daquelas que eu considero um porre, coloquei só pra encher linguiça mesmo.

Na seqüência um faixa-a-faixa cretino:

01) Os OstrasUma, Duas ou Três (Punheta) – Aparecida com o boom de bandas brasileiras nos primórdios da emetevê, Os Ostras não vingaram mais. O sarcasmo juvenil contido na letra e melodia desta música de pegada surf music, ao contrário da banda, nunca foram esquecidos.

02) Skowa & A Máfia - Atropelamento e Fuga!!! – Referência da música negra brasileira, Skowa alcançou o sucesso nacional pelos idos de 1988 com esta canção com samplers de Jimi Hendrix suingados.

03) Virgulóides - Bagulho no Bumba – Essa todo mundo lembra, a banda tocava semana no Gugu e semana no Faustão, nas gloriosas tardes de briga de Ibope no domingo. Anos depois que eu fui notar que isso era plágio de Mundo Livre S/A (ou vice-versa?). A levada é idêntica à Livre Iniciativa, lançada na mesma época por Fred 04 e sua patota.

04) Fausto Fawcet - Kátia Flávia – Um dos poucos clássicos dos finados anos 1980 que eu posso dizer que gosto. Foi trilha sonora de uma das últimas novelas que prestaram nesse mundo (sei lá se novela prestou um dia). Ah, pra quem viu o filme Lua de Fel, do brilhante Roman Polanski não esquece da 'Loirassa Belzebu' na trilha também.

05) Black Future - Eu Sou o Rio – A única que não conheci na infância/adolescência, mas sei que tocava muito nas rádios cariocas quando foi lançada. Considero a melhor dessa coletânea.Uma cantora inglesa chamada Ebony Jones tá fazendo sucesso numa música chamada Don't Fart on my Heart (não Peide no Meu Coração) com um sampler em cima deste clássico roqueiro carioca de 1988. 06) Garotos de Rua - Tô de Saco Cheio – “Lá em casa continuam os mesmos problemas” e na sua? Cantando no chuveiro?

07) Grafite - Mama Maria – Mais uma típica e maçante batida oitentista com um dos refrões mais batidos que eu já escutei. Olha o nome da banda, que coisinha mais pretensiosa.

08) Absyntho - Meu Ursinho Blau Blau – Essa eu lembro no Cassino do Chacrinha. O vocalista , Sylvinho Blau-Blau, esboçou ser o grande galã das empregadinhas com seu mullet, achando que ia arrebentar a boca do balão. Virou crente.

09) Hanói-Hanói - Totalmente Demais – Essa daqui até Caetano Veloso regravou. Em 1986, acho que foi a mais tocada, estava em todo canto, com sua letra boba e malandrinha.

10) MetrôTudo Pode Mudar – Banda de franceses radicados no Brasil. Essa faixa aqui eu nem comento de tão ruim.

11) P.O. Box - Papo de Jacaré – Letra retardada pra música idem.

12) Ritchie - Menina Veneno – Essa daqui eu coloquei de birra comigo mesmo, a mais baranga de todos os tempos! Não perde nem pra Waldick Soriano.

Link para download aqui.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A Pessoa é Para o que Nasce

Sem forçar a barra pra puxar saco de de estrelas pseudo-cultas da música pop, vou indicar um disco diferente. Trilha sonora do documentário A Pessoa é para o que Nasce, baseado na vida das irmãs Maroca, Poróca e Indaiá, as famosas Ceguinhas de Campina Grande.

Apresentadas ao grande público num curta-metragem realizado em 1997 pelo diretor Roberto Berliner (que dirigiu também o longa em 2004), essas orfãs emboladeiras e tocadoras de ganzá sustentavam uma família com 14 pessoas desde novas.

A Pessoa é para o que Nasce é um longa-metragem que conta a trajetória delas em sua primeira apresentação em São Paulo e no Festival Percpan (o maior do país). Apresenta essas compositoras naturais, descobertas ao acaso pelo diretor, a exemplo de Adão Xalebaradã, compositor nato encontrado em plena produção durante as filmagens do célebre Notícias de Uma Guerra Particular, por João Moreira Salles.

Mas o negócio é falar do ousado projeto da trilha sonora desse documentário. Coisa muito rara, por sinal, documentário ter trilha própria. O primeiro cd conta com as canções originais de Maroca, Poróca e Indaiá. Permeadas por sinceros diálogos do filme e não possuem acompanhamento de banda, somente a embolada executada pelas próprias. Às vezes as conversas soam engraçadas, às vezes nota-se um tom emocionado, nunca forçado.

E como surpresa o segundo disco, com releituras de diversos medalhões do pop tupiniquim. Quero deixar claro que não gosto de alguns artistas, mas apreciei as releituras. Destaques para o Mombojó, que contou participação do ex-vocalista do Sheik Tosado, China, na nostálgica Abre a Janela. B Negão interpreta o veloz côco Siga e Venha, Siga e Vá numa linguagem ragga, com a participação das próprias autoras. Coco do Leão Arretado, Nervoso & Canastra transformaram num épico nordestino.

Animou? Então baixa o CD 02, com as releituras aqui. Lista das músicas:

01 Atirei no Mar II - Os Paralamas do Sucesso e B Negão
02 Abre a janela - Mombojó
03 Como é bom a gente amar - Lenine
04 Segredinho - Junio Barreto
05 Siga e venha, siga e vá - B Negão
06 Laurinda - Banda Eddie
07 Coco do leão arretado - Nervoso e Canastra
08 Tamborim - Zé Renato e Teresa Cristina
09 Avião - Lirinha
10 Canção da despedida - Otto
11 Moço me dê uma esmola (Vista Grossa) - Fausto Fawcett e Laufer
12 Noite Enluarada - Pato Fu
13 Era tarde - Cabelo
14 Abre a janela e escuta - Silvério Pessoa
15 Jurema Preta - Elba Ramalho
16 Inhame - Versão Lula Queiroga
17 As quatro coisas do mundo - Bráulio Tavares
18 Sinto no peito essa dor - Pedro Luís e A Parede
19 Dub blind - Originais do Sample

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Batidas Beatificadas, Ainda Ressonando


A circulação de costumes fora do padrão perpetrada pela chamada Geração Beat se consolida até hoje, através de influência de uns mitos tipo Jim Morrisson ou Bob Dylan. I'm Not There filme recém lançado que conta a vida de Dylan, mostra a passagem de quando o bardo do folk conhece seu ídolo beat e futuro amigo, Allen Ginsberg. É o único momento do filme em que um dos Bob Dylan retratados (são vários retratados, cada hora como uma personagem diferente, uma criança negra, uma mulher, um velho, um preso etc) se mostra uma pessoa humilde.


Posteriormente ao contato com a geração dos 60, Allen Ginsberg se envolveu com diversas bandeiras e projetos musicais. Primeiro, foi a legalização do aborto e da maconha. Depois, envolveu-se com os punks engajados do The Clash, que fizeram parceria com ele na excelente música Ghetto Defendant. Depois, Paul McCartney e Philip Glass musicaram com ele o poema The Ballad of the Skeletons, uma de suas mais contundentes letras que, mesmo sendo de 1986, parece que foi escrita hoje. Já postumamente, o DJ Spooky remixou o poema End the Vietnam War, com o próprio Ginsberg declamando e, mesmo retratando um fato datado, soa simpático. Até o Rage Against the Machine já ‘declamou’ um poema de Ginsberg ao vivo.

Já o eterno adicto Willian Burroughs foi ator em diversos filmes e produziu canções com nomes bem distintos um do outro, de Kurt Cobain a Ministry, de The Doors a Kate Bush etc. Um filme que eu recomendo, onde Burroughs faz um papel de um padre que é quase ele mesmo é Drugstore Cowboy, sobre pessoas que assaltavam farmácias para se drogar. Uma canção bem relax que ele fez com o R.E.M. e que ficou muito bacanuda se chama Fuck Me Kitten, onde imagina um relacionamento passado com Marlene Dietrich.

Jack Kerouac, o beat mais famoso, morreu direitão. E bem mais cedo que seus pares, por isso o que se encontra dele no mundo da música e do cinema é tributo/citação. A banda brasileira Gang 90 fez uma música com o nome dele, com o finado vocalista Júlio Barroso sonhando ser o próprio mito beat. Além da citação Só As Mães São Felizes, título de uma música e de uma biografia sobre Cazuza também ser de autoria de Jack Kerouac. Em 1997, foi feito um tributo a ele chamado Kerouac: Kicks Joy Darkness, com Morphine, Patti Smith, Tom Waits, Hunther Thompson etc.

No fim do ano passado, a mídia espalhou a notícia de que Walter Salles iria filmar o clássico On The Road com Johnny Depp no papel principal. Resta saber se sai da gaveta mesmo e se vai prestar.

O responsável por trazer a literatura beat ao Brasil, já na década de 1980, foi o poeta maldito curitibano Paulo Leminski. Daí houve um hiato nos 1990. E nos últimos anos a editora L&PM passou a lançar muita coisa deles em pocket, inclusive uma célebre tradução/introdução à On The Road do célebre jornalista Eduardo Bueno.

Hoje em dia, se formos medir a influência da geração beat no mundo da música, encontramos ecos também nas obras de Beastie Boys, Bad Religion, The Raveonettes, Queens of the Stone Age e num monte de roqueiro degenerado por aí.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Batidas Beatificadas

Há alguns anos o professor de fotografia Rui Cezar sugeriu aos seus maus alunos que não quisessem tomar recuperação final para fazer um trabalho paralelo que até hoje não esqueço. Com o passar do tempo, acabei mergulhando naquele tema, sobre um movimento ligeiramente desconhecido ou visto com maus olhos pela maioria das pessoas. E se uma grande porção de mitos beberam na fonte deles, os Beatniks, algo de bom deve ter saído dali.

A palavra batida possui várias conotações na língua portuguesa. Pode designar ritmo musical, colisão automobilística, coisa ultrapassada, coquetel alcoólico, comida, montaria, uma diligência policial em local suspeito ou um rastro (no mato). No caso da sua correspondente em inglês, beat, que também é cheia de sentidos e pode ser entendida musicalmente falando, além de ser muito empregada para designar algo como um 'cara batido', 'escória' etc.


No ano de 1948, o escritor Jack Kerouac enxergou na palavra beat o termo latim correspondente a beatitude e cerca de dez anos depois a estrutura dos costumes ocidentais já não era a mesma, meio que influenciada por isso. Após a consolidação do best-seller Pé na Estrada (mais conhecido como On The Road), escrito durante uma semana sob intensas doses de efedrina por Kerouac, ocorreu uma busca individualista em não se encaixar mais sob o sonho do american way of life.

Paulatinamente o grupo de escritores amigos de Kerouac, já denominados Geração Beat, alimentou a incitação pra que cada indivíduo deixe de lado seus desejos consumistas, expondo as veias endinheiradas da América. Claro que em pleno período de caça às bruxas, foram acusados de comunistas, porém, como a maioria deles era apolítico ao extremo, logo espantaram as acusações cegas dos políticos conservadores adeptos do movimento Macartista pras cucuias.

Diversos autores, como o poeta Allen Ginsberg ou o relator drogadicto Willian Burroughs eram colocados como personagens (sempre com nomes fictícios) nos livros de Kerouac. Logo foram se tornando respeitados pela sua facilidade em levantar a discussão sobre diversos temas polêmicos ou vanguardistas. Desde ecologia, budismo, literatura oriental, banditismo, legalização das drogas, aborto, liberdade sexual e outros tabus dos quais hippies e punks levantariam bandeira nas décadas seguintes. Se formos considerá-los como a primeira subcultura de massa do planeta também não estamos falando mentira.

No fim da década de 1950, o movimento foi de beat pra beatnik e concretizou-se como um sucesso na grande mídia. O sufixo 'nik' vem da paranóia americana com os costumes que os beats amalucados escancaravam, tão forte como o recém-lançado (naquela época) satélite russo Sputnik, o primeiro a circundar a esfera do planeta.

No fim das contas, até havia uma relação do movimento com o fotógrafo suíço radicado nos Estados Unidos, Robert Frank, mas aí já é outra história. Assim como dizer quem foram os músicos, artistas e cineastas que piraram na fórmula beatífica dos beats.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Ouvi Falar de Releituras - Parte 2


Bem, então veio rapidinho a segunda e última parte falando das tais regravações musicais. Que não são exemplos maiores de como se fazer um cover criativo. Porém, na minha opinião dizem muito tanto sobre os artistas regravadores quanto dos regravados;

- Mike Patton - Ford Mustang (Serge Gainsbourg cover) - Difícil fazer um cover piorado desta grande canção. Feito há mais de dez anos pelo multi-instrumentista e Sinatra moderno, foi minha introdução ao mestre da chanson francesa Serge Gainsbourg e digo que é demais de ouvir no fone de ouvido.

- Gogol Bordello - Mala Vida (Mano Negra cover) - Esta versão não sai do meu winamp nos últimos tempos. A batida cigana desta canção feita pela banda do ucraniano Eugene Hütz mais do que combinou seu timbre à pluralidade da antiga banda de Manu Chao.

- David Bowie - Cactus (Pixies cover) - O camaleão do rock não gosta de ficar pra trás quando o assunto é conhecimento de bandas novas e criativas. Quando ele fez esse cover, o Pixies nem existia mais. Porém se você for olhar na genealogia do rock, os Pixies só foram existir uns 20 anos após o primeiro disco dele. Quanto à música em si, acho que até não fãs de Bowie ou de Pixies podem gostar.

- Ramones - Surfin' Bird (The Trashmen cover) - São os vovôs do punk tocando aquilo que eles mais gostavam de escutar em casa. Mais fiel que isso só a torcida do Corinthians, se ela continuar existindo com o time em queda.

- Mutantes - Tempo no Tempo (The Mamas & The Papas cover) - Um pouco de cabaré nesta quase vinheta que até mesmo muitos fãs do Mutantes não sabem que é da mesma banda de California Dreaming.

- Mombojó - Anarquia (Ronnie Von cover) - Essa ainda não recebeu uma versão digna em estúdio. A versão que saiu no disco ao vivo da banda é quase boa. Porém deixo-a aqui pelo fato de ser poderosa pra ver a banda tocando-a (essa força da canção não fácil de sair no disco). Pode pedir pra tocar 'aquela do Ronnie Von' no show que vale a pena. Quase ninguém sabe que foi o Ronnie Von que deu o nome pros Mutantes né? Psicodelia e pancada!

- Los Sebosos Postizos - Quero Esquecer Você (Jorge Ben cover) - O falecido projeto paralelo dos integrantes da Nação Zumbi tocando essencialmente Jorge Ben tem neste cover sua mais potente variante. Curta e fina.

- Butthole Surfers - Hurdy Gurdy Man (Donovan cover) - Com um vocal ligeiramente distorcido por um pedal, o vocalista Gibby Haines parece soluçar enquanto canta esta balada. Parceiros de Johnny Depp no projeto P, fizeram desta versão uma coisa fiel e irônica ao mesmo tempo.

- NY Loose - Lust for Life (Iggy Pop cover) - Se você já assistiu Trainspotting, imagine o protagonista do filme correndo no ritmo deste cover. Não ia ser pego nunca.

- Los Straitjackets - Shake That Rat (Nick Lowe cover) - Agora pra quem gosta de surf music, um som instrumental coeso e pulsante. Uma das maiores bandas do gênero em atividade, aqui com a participação do próprio Nick Lowe e seu baixo bem pessoal.