segunda-feira, 28 de junho de 2010




Excelente e inspirador texto extraído do http://baixacultura.org/ . Muito obrigado por compartilhar esta pérola.

Escritor de no mínimo nove livros de ficção, pai do ciberespaço e do steampunk, tuiteiro, William Gibson contribuiu para uma reportagem de capa da revista Wired (de novo ela) em 2005. A matéria “Remix Planet” versava sobre o estado das recombinações até então, seja na literatura de Gibson, na música do Gorillaz, no cinema de Tarantino ou em outras diversas áreas que sempre tiveram referências explícitas e implícitas em outras obras. Em seu texto, o autor conta um pouco da influência que teve de outro William escritor, o beat Burroughs, e de sua visão da cultura remix. Novamente, não foi um texto fácil de se passar para o português, portanto se algum estudioso da obra dele aparecer por aqui, como a Adriana Amaral ou o Fábio Fernandes, por favor nos corrijam. É ano de copa, e mais grave ainda mês de copa, então estamos numa fase atribulada. A rica reportagem também trazia um gráfico mui interessante sobre a história do remix no século XX, conferível logo depois da tradução. Apreciem que mais coisa da revista vem por aí.




Confissões de um artista plagiador.

Quando eu tinha 13 anos, em 1961, eu secretamente adquiri uma antologia da Geração Beat – pressentindo, corretamente, que minha mãe não iria aprovar.

Imediatamente, e para minha grande excitação, eu descobri Allen Ginsberg, Jack Kerouac, e um William S. Burroughs – autor de alguma coisa chamada Almoço Nu, extraído ali com todo o seu brilhantismo cintilante.

Burroughs era então como um literato radical tal como o mundo tinha para oferecer, e na minha opinião, ele ainda detém o título. Nada, em toda a minha experiência de literatura até então, foi tão marcante para mim, e nada jamais teve um efeito tão forte sobre o meu senso das íngremes possibilidades da escrita.

Mais tarde, tentando entender esse impacto, descobri que Burroughs havia incorporado fragmentos de textos de outros escritores em seu trabalho, uma ação que eu sabia que meus professores teriam chamado plágio. Alguns destes empréstimos foram furtados da ficção científica americana dos anos 40 e 50, adicionando um choque secundário de reconhecimento para mim.

Até então eu sabia que este “método cut-up”, como Burroughs chamava, era central para o que seja que ele pensou que estava fazendo, e que literalmente acreditava que fosse semelhante à magica. Quando ele escreveu sobre o seu processo, os cabelos do meu pescoço se levantaram, tão palpável foi a emoção. Experimentos com fita de áudio inspiraram-no de uma maneira similar: “brinquedinho de Deus” foi como seu amigo Brion Gysin chamou o toca-fitas deles.

Sampling. Burroughs estava interrogando o universo com uma tesoura e um pote de cola, e a mínima imitação de outros autores não era considerada plágio.

Uns 20 anos depois, quando nossos caminhos finalmente se cruzaram, eu perguntei à Burroughs se ele ainda estava escrevendo em um computador. “Para que eu ia querer um computador?” perguntou ele, com evidente desgosto. “Eu tenho uma máquina de escrever.”

Mas eu já sabia que um processador de texto era outro dos brinquedinhos de Deus, e que a tesoura e o pote de cola estavam sempre lá para mim, no desktop do meu Apple IIc. Os métodos de Burroughs, que também funcionaram para Picasso, Duchamp e Godard, foram construídos para a tecnologia através da qual eu agora componho minhas próprias narrativas. Tudo o que eu escrevi, acreditava instintivamente, era uma extensa colagem. Finalmente o significado parecia uma questão de dados adjacentes.

Depois, explorando possibilidades do (assim chamado) ciberespaço, eu preenchi minhas narrativas com referências a um ou outro tipo de colagem: o AI em Count Zero [romance de Gibson, publicado em 1986, traduzido para o Brasil com o mesmo título] que emula Joseph Cornell, o ambiente de assembléia construído sobre a Ponte da Baía em Virtual Light [outro romance de Gibson, publicado em 1993, sem tradução para o português].

Enquanto isso, no início dos anos 70 na Jamaica, King Tubby e Lee “Scratch” Perry, grandes visionários, foram desconstruindo a música gravada. Usando um espantosamente primitivo hardware pré-digital, eles criaram o que chamaram de versões. A natureza recombinante dos seus meios de produção rapidamente se espalhou para DJs em Nova York e Londres.

Nossa cultura não se importa mais em usar as palavras como apropriação ou empréstimo para descrever estas muitas atividades. A audiência de hoje não está escutando tudo; está participando. Na verdade, audiência é um termo tão antigo como gravação, um arcaicamente passivo, outro arcaicamente físico. A gravação, e não o remix, é a anomalia hoje. O remix é a verdadeira natureza do digital.

Hoje, um processo interminável, recombinante e fundamentalmente social gera horas incontáveis de produto criativo (um outro termo antigo?). Dizer que isso representa uma ameaça para a indústria fonográfica é simplesmente cômico. A indústria do disco, embora não saiba ainda, tem seguido o caminho da gravação. Em vez disso, o recombinante (o bootleg, o remix, o mash-up) se tornou a característica central na virada dos nossos dois séculos.

Vivemos em um momento peculiar, em que o registro (um objeto) e a recombinação (um processo) ainda, embora brevemente, coexistem. Mas parece haver poucas dúvidas quanto à direção que as coisas estão indo. A recombinação é manifestada em formas tão diversas como a graphic novel de Alan Moore, A Liga Extraordinária, machinimas [imagens de games editadas como se fossem um filme] geradas com mecanismos de jogo (Quake, Doom, Halo), toda a biblioteca metastasiada de remixes do Grito de Dean, distorção de gênero fan fiction dos universos de Star Trek ou Buffy ou (mais satisfatório, de longe), ambos de uma vez, a Edição Fantasma sem JarJar Binks (som de uma audiência votando com seus dedos), tênis esportivos híbridos de marcas, felizmente transgressores de logotipo de salto em distância, e produtos como as figuras Kubrick, colecionáveis do Japão que são astutamente mascarados como desalmadas unidades corporativas, resgatados do anonimato através da aplicação de uma cuidadosa e agressiva pintura “customizada”.

Nós raramente legislamos sobre novas tecnologias que nascem. Elas surgem, e nós mergulhamos com elas em quaisquer vórtices de mudança que elas gerem. Nós legislamos após o fato, em um jogo perpétuo de pega-pega, tanto melhor quanto podemos, enquanto nossas novas tecnologias nos redefinem – tão certamente e talvez tão terrível como temos sido redefinidos pela televisão.

“Quem é o dono das palavras?” perguntou uma desencarnada mas muito persistente voz durante a maior parte da obra de Burroughs. Quem é o dono delas agora? Quem é dono da música e do resto da nossa cultura? Nós somos. Todos nós.

Embora nem todos saibamos disso – ainda.

O mais recente romance de William Gibson é Reconhecimento de Padrões [edição brasileira pela Aleph, tradução de Fábio Fernandes].




quarta-feira, 23 de junho de 2010

Escutar música num pedaço de chip com um fone. Há pouco mais de dez anos um colega me disse isso e achei coisa de ficção científica. Com o galope do mp3, myspaces e youtubes da vida, o mercado da música diminuiu e cresceu. Exatamente da forma que as gravadoras não queriam. E os ipods, simples pedaços de chips pra colocar música transformaram-se numa espécie de etiqueta com fone branco.

Os pequenos selos de música enxergaram antes das majors que disponibilizar os arquivos em mp3 de uma banda em ascensão ajuda muito mais que muita divulgação. Hoje, a caleidoscópica quantidade de estilos musicais e artistas, fez os nichos serem cada vez mais enigmáticos e o público menos pasteurizado em FMs que tocam as mesmas 40 músicas durante a semana inteira.

Analisando o modo como os artistas enfrentam o mercado e se adaptam livremente à ele, apareceu este documentário bacana feito com alguns artistas de São Paulo. Cerca de meia hora com Holger, Killer on the Dancefloor, Chernobyl, Xis, Thiago Pethit, Firefriend etc. E de gruja, músicas com parcerias atípicas destes artistas oriundos de diferentes estilos.


WE.MUSIC - COMO A WEB REVOLUCIONA A MÚSICA? from My PIX on Vimeo.



Database + Holger - This is an untitled song by wemusic

Killer on the Dancefloor + Thiago Pethit - Come Debbie by wemusic

Pristine Blusters - Vendetta (Instrumental Mix) by wemusic

Chernobyl + Xis - Pra que tudo se nada se leva by wemusic

Pristine Blusters + Firefriend - So Slow by wemusic


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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Rock Preto

Isso aqui eu ouvi e lembrei dos chegados Gurila Mangani e Matéria Prima. Gurila, te devendo aquelas fotos, Matéria, troco suas Nonada pelas Soma, heheh. Espero que curtam. Já ouviram antes?

Desde que o Run DMC juntou-se ao Aerosmith em meados dos anos 80 e acabou ressuscitando o dinossauro do rock -que já tava quase sepultado- com a regravação de Walk This Way, a junção de rap e rock deu liga. E era, apesar de ter tornado-se fórmula batida anos depois. De toda forma, a mistura provou-se algo com um Q de atemporalidade, mesmo cansando fácil. Ao menos quebrou a cara dos radicais insistentes de que isto da minha classe presta e aquilo que sua patota faz ruim.

Cypres Hill fazendo música com Sonic Youth e coisa do gênero? Foi quando o álbum Judgment Night saiu em 1993 só com essas ditas cruzas e muito fã de rap e de rock alternativo literalmente trocou de orelha. De fato, não é fácil conectar esses dois mundos de modo criativo e sincero. Pois essa trilha sonora de filme que ninguém viu ou não devia ver, ficou como um divisor de águas no amálgama em sons de preto com branco ou vice-versa.

A partir daí, durante um bom tempo, apareceu uma salada russa de bandinha metaleira trocando solo por beat-box, largando a virtuose instrumental por barulhinho esquisito, vide os adidas metal genéricos Korn-plágios. Ou banda de rap querendo virar metal - vide o próprio Cypres Hill ou Boo Ta Tribe. Cansou, né? Claro que teve muita coisa boa, mas nada pra você falar oh

E eis que esses dias, notei uma banda de rock velha conhecida da qual nunca fui muito fã, aparecendo com mais pujança por aqui no player. É o The Black Keys, que lançou um disco novo com uns dois bons hits recentemente - coisa incomum nessa onda de rock retro que assolou esse século pré-2010.

Daí, fui catar um disco que mistura rap com rock. É uma banda chamada Blakroc, lançada no final de 2009 e tem uns rappers famosos no meio. Aquela coisa de featuring que sempre rola no mundo dos mano, com uns roqueiros aí. tocando Fui ver, e os roqueiros eram justamente os caras do The Black Keys. Ganhou respeito, e o álbum do Blacrok dá de 10 a 0 no da própria banda.

Confere os vídeos. O primeiro é o videoclip de uma música que não tem no álbum, com Onyx ressuscitado. O segundo é o único clip do álbum do Blacrok e os outros, o making off das outras faixas da bolacha.

























Sei lá se eu vou botar o disco aqui pra vocês baixarem, seus...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

EP visceral e pesado do Grupo Porco de Grindcore Interpretativo


Eles começaram como o Skank, fizeram sucesso sob o nome de Jota Quest e hoje são como o Pato Fu. Essa poderia ser a história do Grupo Porco de Grindcore Interpretativo se, em janeiro de 2009, eles tivessem aprendido a tocar sanfona e cativado a tradicional família mineira com o Baião politizado de raiz. Ao invés disso, trilharam uma carreira de sucesso e hoje seduzem platéias por onde passam, seja na capital ou em festivais como o Bananada, em Goiânia, onde se firmaram como o primeiro e maior grupo musical de grindcore interpretativo tupiniquim do universo.

O sadismo dos filmes do cineasta gaúcho Sady Baby, responsável por clássicos como “Emoções Sexuais de um Jegue” (1986), foram a inspiração necessária para que essa banda pudesse salvar, através da chacota, a cena musical que se auto-depreciava. Dinossauro com um Beck Gigante (abril de 2010) é a prova disso. Visceral como um padre pedófilo, pesado como uma dobradinha e, ao mesmo tempo, suave e delicado como a primeira menstruação de uma cotia, o EP é obra de Porquinho (guitarras e vocal), Leo Pyrata (vocal) e Batista (baixo).

O disco é uma obra de arte, uma macumba pra turista sexual usar de trilha sonora em apresentação de powerpoint sobre os highlights do carnaval na lama, como explica o Manifesto do Samba-Grind-Delícia, lançado junto com o disco. Baixe, escute, mostre pra sua namorada e ajude a salvar o mundo.

Baixe aqui este lindo disco

Resenha macia feita pelo meu amigo Glutão (vulgo Danyboy), extraída do Mixsórdia

sexta-feira, 7 de maio de 2010


Colocar uma imagem na rede ou postar qualquer texto pela internet é uma tarefa corriqueira no cotidiano de qualquer pessoa hoje em dia. A partir do ponto em que há uma facilidade plena pra criar um endereço próprio - num blog ou algo do tipo - qualquer um está apto a fazer sua participação no mundo on-line de forma concreta e ter certo respaldo, desde que tenha algo a dizer.

Mas nem sempre houve uma terra de ninguém prática e barata como a internet para apresentação de idéias livres. Houve um tempo que fazer qualquer produção em papel era uma coisa de outro mundo. Na época do mimeógrafo e logo depois, do xerox, quem estava afim de mostrar o que pensa numa publicação caseira de papel, tinha que se virar. E o meio mais prático de se fazer isto, era numa mídia que pouca gente até hoje nem sabe o que é, o fanzine.

Quem me lê contando sobre esse tema e já tem estrada no assunto deve achar que digo isto como uma velha novidade requentada. Mas não, mesmo tendo feito um projeto experimental como conclusão de curso (TCC) em comunicação social em 2004 junto de meus amigos Daniel, Karl e Rodrigo, ainda hoje me assusto como diversas pessoas esclarecidas que nunca ouviram falar no termo. O tal caderninho montado a partir de textos, imagens ou poemas diversos com um tema específico - ou bem variado quese tornou mais raro a partir da facilidade de informação on-line.

Este tipo de publicação amadora começou a se difundir na década de 1930 nos Estados Unidos, através de sindicatos reivindicando direitos. Na mesma época, os fãs de ficção científica que não viam matérias sendo publicadas sobre seus livros e filmes prediletos na grande mídia, resolveram dar vazão à sua produção textual em revistas próprias amadoras de pequeno formato e tiragem. O campeão de xadrez e entusiasta da ficção científica Russ Chauvenet foi quem criou o portmanteau fanzine através das palavras fanatic (fanático) e magazine (revista) para definir este tipo de publicação não profissional já em 1940. Tudo era enviado ao mundo inteiro através de redes montadas através de trocas de cartas e continua assim - com menos intensidade - até hoje.

Com o surgimento do rock and roll na década de 1950 e o maio de 1968 pelo mundo, os fanzines tomaram um grande fôlego até sua forma mais potente na década de 1970 após a aparição do movimento punk. Para se ter noção da importância deste tipo de publicação para o movimento, muitos zineiros só consideram a existência do fanzine como se convencionou hoje a partir do punk. O nome do primeiro zine na categoria punk também tinha título pancadão, Sniffin' Glue, ou seja, Cheirando Cola, provavelmente uma alusão à uma música homônima do Ramones.

Os fanzines prepararam o terreno para o aparecimento da mail art, do e-mail tosco enviado à revelia e até mesmo da arte urbana, através dos stickers e da poster art - também são feitas trocas desses papéis pelo correio para serem pregados pelo mundo. Quanto à nossa linguagem, grande parte das gírias e abreviações usadas por usuários de computadores é derivada dos jargões praticados pelos fanzineiros. O copyleft, começou a ser debatido em diversos fanzines antes mesmo do mundo virtual. A estética suja usada que hoje vemos até mesmo em novelas juvenis idiotas é uma chupação do formato de publicação que qualquer pessoa faz em casa.

Os primeiros coletivos de blogueiros aqui no Brasil mesmo foram fundados por zineiros experientes – vide os nada modestos membros do Cardosoonline.

E Hoje, Alguém Ainda Faz Isso?

Todo mundo que escreve por prazer sem o intuito de ser remunerado é um zineiro potencial - vide este escriba aqui. A grande mídia sabe muito bem que muitas tendências musicais, de moda e comportamento são lançados por blogueiros – ou zineiros digitais – e obviamente diversos jornalistas sugam suas pautas desse povo nerd que não tem o que fazer além de escrever sobre aquilo que gostam.

Muitos jornalistas já foram zineiros ou leitores de zines e outros ex-zineiros partem para negócios na seara da cultura alternativa como donos de pequenas gravadoras, pequenas grifes após ter contato com um mercado possível através da correspondência. Grandes ilustradores, como Fábio Zimbres, Andre Dahmer e Allan Sieber tiveram seu começo através da zinagem.

Através do blog coletivo Zinismo, podemos ver que tem muita gente relutante no velho formato papel sim. Alegando serem de origem “autoral e independente, formado por uma confraria de fanzineiros separados pela distância física e aproximados pela era digital”, o blog está no ar desde o final de 2008 e em plena atividade, sempre com alguma novidade no tradicional formato xerocão muendo solto por aí.

Em Belo Horizonte tem um pessoal muito dispô, que é o povo do Grude Sujo, formado por Desali e Estandelau. Além de outros loucos esporádicos e sem periodicidade que publicam suas impressões em papel, como o zine A Zica, que está pra ser impresso por mim, Luiz Navarro e Marcelo Lustosa.

E pra terminar sem lero-lero, fiz uma coletânea hits inspirada nessa cultura e no livro Mate-Me, Por Favor, escrito pelo ex-zineiro Legs McNeil, logo, Kill Me, Please (canhotagem):



01) Richard Hell & The Voivods - Blank Generation

02) The Velvet Underground - There She Goes Again

03) Ramones - Now I Wanna Sniff Some Glue

04) MC5 - Kick Out The Jams

05) The Cramps - Human Fly

06) Iggy Pop & The Stooges - I Wanna Be Your Dog

07) The Dictators - California Sun

08) T. Rex - Chariot Choogle

09) The Clash - Garageland

10) Dead Kennedys - Police Truck

11) Misfits - Teenagers From Mars

12) Generation X - Dancing With Myself

13) The Gun Club - She's Like Heroin to Me


Texto feito para a http://sopamagazine.blogspot.com/ Nº 4: