sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ganhei Vida Onde Não Tem Preço



Quando ajudei a organizar o Kréu Krio no Mercado Novo em 2008, durante uma semana, frequentei o terceiro andar do prédio, onde pude experienciar a efervescência de um espaço que os frequentadores de shopping center nem imaginam que poderia haver em Belo Horizonte – a Loja Grátis.

Foi muito rico quando eu, que estava ali no intuito de poder trocar idéia sobre movimentos alternativos e explicar o que era nossa proposta com o Kréu Krio, passei boa parte do tempo explicando do que se tratava para quem passava por ali e convidando para conhecer nossa exposição ou até mesmo a tal Loja Grátis – que foi a experiência mais bacana de algo que já acontecia por lá e que pude absorver para vida.

Relatava a quem chegava lá, curioso da proposta da loja que não vendia nada, que qualquer um poderia pegar qualquer coisa (no máximo três peças) e que não necessariamente era obrigado a deixar alguma coisa lá naquele momento. Cada um tinha uma reação, uns ficavam com receio, outros pediam para levar mais do que três coisas e todo mundo que levava algo, saía de lá prometendo que iria deixar umas coisas velhas lá outro dia – e não que eu estivesse cobrando isto, era apenas uma explicaçã

Os trabalhadores daquele andar (em sua maioria serralheiros, muito atenciosos e solícitos) e habitués do local, sempre que podiam, passavam por ali e levavam coisas para si próprios ou seus familiares. E traziam desde discos de vinil até sucata tecnológica – passando por roupas, livros, filmes VHS e até mesmo pílula do dia seguinte.

Organizada pelo pessoal que veio do Domingo Nove e Meia (evento que acontecia no primeiro domingo de cada mês, debaixo do viaduto Santa Tereza) e do Gato Negro a Loja Grátis foi, segundo um de seus participantes, Renato Correa, “um prolongamento do D9M, pois lá tinha a Feira Grátis durante o evento e sempre sobravam coisas. A recomendação era que quem trouxesse, levasse de volta o que sobrou, mas mesmo assim sobrava. A partir daí, pensamos que seria legal ter um espaço fixo pra isso, e já pretendíamos ter um espaço físico pra dar suporte e servir de referência pras coisas que fazíamos. Não só loja ou feira grátis, mas eventos, oficinas, biblioteca, espaço de convergências e tal. Inspirados pela loja gratis da Alemanha, pegamos a loja no Mercado Novo assim que soubemos dos espaços vazios lá através do Kasa Vazia. E a proposta do D9M era ocupar a cidade, então, a Loja Grátis ia ser um desafio novo por ser um formato diferente e mais intenso do que ocupar um viaduto no fim de semana.” A Loja Grátis deixou de existir pela falta de frequentadores, mantenedores e doadores que pudessem estimular a circulação de gente e produtos.

Conversando com a empolgada participante do Kaza Vazia e do Vacas Magras, a artista plástica Júnia May, tive o relato de uma ação denominada Trocaria & Permutaria, que ela promoveu durante o Kaza Vazia no Mercado Novo no início de 2008, antes mesmo da existência Loja Grátis. Tive sensação de que mesmo indiretamente, essa Trocaria & Permutaria pudesse ter influenciado o que aconteceria lá poucos meses depois. Num local relativamente abandonado pela ação do tempo e do pós-capitalismo, para Júnia e o pessoal anarquista, foi natural criar um espaço com esse caráter na mesma época. E essa não é a primeira tentativa de re-ativar o local, pois aconteceu ali um evento em prol da Loja Grátis em maio de 2009, que infelizmente não vingou, apesar de ter sido bem bacana.


Trocaria & Permutaria + Loja Grátis, juntas

Pedi a May que me enviasse um texto que explicasse o que era isso. Ela me enviou e considerei o texto bem relevante:

Na prática, é uma feira de trocas aberta a todos que desejam intercambiar objetos, serviços, conhecimento, arte, enfim, a todo tipo de intercâmbio que substitui o dinheiro, permitindo, ao cidadão comum, acesso a uma grande variedade de produtos e serviços. Promovendo a circulação de valores, ao invés de papel moeda, a TROCARIA & PERMUTARIA incita a substituição da acumulação e do lucro por solidariedade e cooperação, por meio da valorização do trabalho, do saber e da criatividade humana em detrimento do capital e sua propriedade. É prática de adaptação a nova consciência econômica que ganha terreno: a economia ética ou Ethonomia.

E segundo Çtalker, “trocaria é um tempo futuro do pretérito, comércio hermético e hermenêutico sem espaço para plutocracia. Hermético por levar os trocantes a compreender o sentido do valor e de seus valores, quando eles são confrontados com os dos outros. Hermético porque cada troca surge da singularidade de seu próprio sentido, na frágil e fugaz equivalência entre diferenças. Futuro porque projeta uma economia sem fetiches de abstração de tempo de vida. Pretérito porque redime todas as economias tradicionais arrasadas pela violência do ocidente. A Trocaria & Permutaria é experiência vivida sem troco.”

Daí, como no próprio site da Loja Grátis, diz:

Devido a vários fatores de organização, envolvimento, tempo e estrutura, @s envolvid@s e interessad@s decidimos fechar o Espaço de Convivencia Loja Grátis de Belo Horizonte. Já a algum tempo, ele tem tido muito pouco movimento, poucas propostas e projetos no espaço e, tambem por vários fatores, pouco envolvimento de pessoas.”

Então, ‘bora manter no Mercado Novo um lugar irradiando boas experiências? Nem que seja por uma tarde… Leve sua roupa velha, que pra maioria ainda é utilizável, um videogame que ninguém mais joga, a coleção de fitas cassette do seu velho, e volte com algo que você precisa e nem sabia, nem que seja ver isto acontecendo.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Roletando - Mashups, indie, hits, remixes, soul e rock no Bordello



Neste sábado o Nelson Bordello, bar, restaurante e cabaré cultural, recebe a festa Roletando. Os DJs Meio Desligado, Zubreu e Canhotagem prometem uma noite de vários ritmos com o único objetivo de divertir a todos.

Gustavo Zubreu também é produtor e editor da OiFM; o Meio Desligado é produtor cultural independente e também faz parte do Coletivo Fórceps. Já o Canhotagem é jornalista e pesquisa causos e músicas, além de envolvido com fotografia e arte de rua. Vale à pena curtir a mistura que esses três vão preparar para a festa.

Também haverá banquinha com venda de CDs de artistas independentes (brasileiros e gringos) por preços super camaradas.

R$ 10

http://roletando.meiodesligado.com

www.nelsonbordello.blogspot.com

fonte: Mixsórdia


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Pesquei um Bitelão e você, fisgou?


Reedição da mostra autônoma temporária, Kreu Krio (2008), o Vendendo Peixe vai ser um festival pra ver, fazer, escutar e, de quebra, visitar o Mercado Novo e encontrar pessoas bacanas numa tarde sabadinha, em 18 de setembro de 2010.

O prédio do Mercado Novo foi inaugurado em 1963 e até hoje não teve suas obras concluídas - é uma peça de arquitetura singular no centro da capital. Mesmo com seu concreto intenso e lajes modernistas estilosas, identidade comercial entre gráficos e músicos, está longe de tornar-se símbolo da cidade ou ponto turístico como o seu vizinho famoso, o glamouroso não sei porquê, Mercado Central.

Apesar de ter sido criado pela iniciativa privada na década de 1960 como uma concorrência ao Mercado Central das vovós, o investimento, mesmo com seus cobogós vazados idênticos à concorrência, não vingou tão potente quanto imaginavam.

Pra quem ainda nunca foi lá, conhecer o terceiro andar do Mercado Novo provoca uma sensação de abandono esquisita e ainda assim confortável. Desconheço espaço no centro de Belo Horizonte que ofereça experiência semelhante. A luz do sol das três da tarde descendo pelas telhas furadas do Mercado Novo te dá um brilho nos olhos gostoso.



Durante o Vendendo Peixe, vai rolar grafite e pintura ao vivo, vídeo-instalações, shows de viola, grindcore, surf music, country, samba, o lançamento da publicação A Zica e muito mais acontecendo no mesmo espaço por uma tarde. Experimente o sol pelas frestas do cobogó e dos telhados vazados num mercado de experiências e trocas artísticas de Belo Horizonte a partir do Mercado Novo.







quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sai, Zica!

Há duas edições da Sopa Magazine, escrevi sobre como os fanzines foram importantes para nos preparar ao vasto cardápio de informações fragmentadas neste caldeirão de contracultura a que temos acesso no mundo virtual hoje Agora, escrevo sobre um projeto de que participo com características similares ao fanzine.

Se qualquer um pode fazer uma revista, melhor ainda é poder fazer com o maior número possível de pessoas que se possa convidar, mentes que possuam interesses em comum, com vontade não só de afagar o ego, mas com disposição para fazer trabalhos coletivos, desde os mais comprometidos até os mais despojados.

Foi no que o pessoal da vontade editorial Urubois - este Canhotagem que vos escreve; os srs. Loise e Turtle - se viu envolvido em poder produzir. Pitaco daqui, tira que não cabe, vem coisa nova lá, o que era pra ser de um lado um pôster e do outro 16 páginas de desenhos do pessoal conhecido, no fim das contas, deu uma brochurinha A5 de 40 páginas impressa em P&B e que ainda pretende ser denominada fanzine. Este processo ainda por cima vai render algum cartaz - sem nada atrás. Pôster, música, invasão de espaço público no Mercado Novo, toda uma bagunça catapultada por um fanzine chamado A Zica. Classe média, morte e macumba pra zerar e chutar essa A Zica de vez...

Com trabalhos de gente nova na praça (
4:25, Alessandro Aued, Bárbara Angelo, Luiza Schiavo, Matuto, Thiago Mazza, Paula Bevilacqua, Toast/Antoine - da Sopa Magazine), pessoal que se conhece pelos seus vestígios nas ruas de Belo Horizonte (Estandelau, Desali, João Maciel, Luiz Navarro, Mosh, Ricardo Portilho, Xerelll) e até quem enviou coisa de longe (a Mayroca Estranhoca, de Floripa), resultando num melindroso e divertido processo pra se fazer.

No dia 18 de setembro, acontece no 3º andar do Mercado Novo o lançamento de A Zica, o Vendendo Peixe, um evento de manhã e tarde muito legal que vai rolar pintura, poster art, instalações e grafite ao vivo, vídeo-instalações, cinema e uma varidede de coisas acontecendo junto no mesmo espaço por um dia.

Estarão tocando no Vendendo Peixe participando nomes emergentes do cenário musical de Belo Horizonte como Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, Vostok Deluxe, Água de Cachorro, Ram, Casper Roots, Apto2Quartos e Samba de Terreiro.

Além destas bandas num canto, vai ter o pessoal do Somando o Som fazendo um improviso e convidando as pessoas a fazerem seu próprio barulho noutro canto do 3º andar do maior mercado do centrão.

Enquantos os sons rolarem pelo ambiente, geral vai pintar o andar inteiro, oficializando o evento como uma reprise mais encorpada de um festival paralelo à Bienal do Grafite que aconteceu no mesmo Mercado Novo em 2008, o Kreu Krio.

E logo que for lançada, A Zica poderá ser encontrada em alguns locais de BH como as pulsantes galerias Quina e Mini. E no Rio de Janeiro, na La Cucaracha. O preço? Mais barato que muita cerveja por aí...

Daí, ainda no mês do desgosto, sai essa coletânea marvada com 13 petardos, Sai, Zica!

01) Sepultura - Ratamahatta
02) Gonjasufi - Ded'n'D
03) Noriel Vilela - Só o Ôme
04) RZO - Pirituba Parte II

05) Beck - Deadweight (edit)
06) Ramiro Musotto - Antônio das Mortes
07) Os Mutantes - Bat Macumba
08) The Clash - White Man in Hammersmith Palais (alternate)
09) Garotos Podres - Meu Bem

10) Type O Negative - Black No.1 (Little Miss Scare-All)
11) Zumbis do Espaço - Mato por Prazer
12) Body Count - Born Dead
13) De Falla - It's Fuckin' Borin' 2 Death

Este texto/coletânea foi feito como colaboração para a Sopa Magazine nº 6


quinta-feira, 22 de julho de 2010

Os Bastardos Populares 4

Enquanto o governo brasileiro segue com sua preocupação em possuir uma nova regulamentação dos direitos autorais pós-sampler e pós-download para proteger os autores nestes tempos que nada é de ninguém, o fluxo de gente fazendo e compartilhando seus frankensteins musicais a partir de obras alheias continua.

Filhos bastardos de músicas queridinhas das mais diferentes tribos, os mashups são a autêntica desconstrução do hit, muitas vezes mais sincera do que as próprias canções originais. E pode fazer isso? Sob o olhar classicista, fazer isto é ilegal, da mesma forma que é ilegal você escutar um mp3 no seu ipobre.

Pra quem acha que isso é moda passageira, a cultura veio pra ficar com o cultivo do P2P, num remix ingenuamente punk, bem mais sincero do que muito barulho que andam fazendo por aí (no sentido do faça você mesmo). Fiz três textos e coletâneas, sobre o tema, Os Bastardos Populares, Um, Dois e Três.

Pra bolar seu próprio mashup, mexidinho, ou bastard pop, você pega o acapella de determinada música e ajunta com o instrumental de outra que possui as BPM (batidas por minuto) semelhantes, criando assim uma nova canção. Divertido nisto é que às vezes colocam-se vozes de cantores desconhecidos mescladas às mais chatas batidas radiofônicas ou vice-versa. Em síntese, são duetos improváveis, atemporais.

Há muito tempo que no Brasil existem diversos bons talentos fazendo esse tipo de som, começando pelo meu xará, o pró-barango e pró-lambada João Brasil, que desde 1º de janeiro de 2010 toca seu blog-projeto 365mashups onde colocará até o final desse ano, diariamente, uma mexida dessas on-line, algumas delas divertidíssimas. De tempos em tempos o sujeito cria um tema pra misturar em cima, de Beatles à baile funk, Ratos de Porão com Caetano Veloso, e muita putaria cada vez mais blasfêmica pros fãs radicais dos medalhões da música.

Outros brasileiros pra serem ouvidos por aí também, o jovem capixaba Andre Paste e o economista Faroff, que é ex-integrante dos Móveis Coloniais de Acuju, além do ilustrador e fuçador musical Sassá (ou Brutal Redneck).

Apesar de estar cansado de saber que a maioria absoluta dessas mexidas é um lixo, curto fazer sempre uma coletânea do gênero. Fico satisfeito de compartilhar com quem também gosta e, como eu, não encontra nada de novo. Como grande parte dos DJs deste gênero híbrido são franceses, não demorou que encontrasse um tributo a Serge Gainsbourg, então tirei uma música do tal álbum, que chama Eu Detesto Serge Gainsbourg, e já que a coletânea nem é boa, a canção escolhida é.

Não podia deixar de dizer que alguns dos artistas que estão sempre presentes nas coletâneas que faço, o totom, lançou um álbum muito bacana só de misturas com Bob Dylan desde que fiz a última coletânea desse gênero e o Dj Moule, que é fera em mesclar mais de duas músicas numa só e fluindo, coisa rara.


01) DJ Moule - Hey, C La Vie (Pixies vs. Peter, Bjorn & John)
02) DJ Erb - Holla in tha Holler (Soggy Bottom Boys vs Gwen Stefani)
03) G3rST - Bloom to Me (Nirvana vs. Koop)
04) Illuminoids - Solta o Space Woman (Wolfmother vs. MSTRKRFT vs. Bonde do Rolê)
05) Faroff - The Bits Are Playing at my House (LCD Soundsystem vs. Beatles)
06) Mad Mix Mustang - Holiday Of Choice (Fatboy Slim vs. Dead Kennedys)
07) The Illuminoids - Pretend We're Alala (L7 vs Cansei de Ser Sexy)
08) DJ Zebra - Disco Oai (Oai Star vs. The Disco 4)
09) totom - Shame on a Bootlegga (Wu Tang Clan vs. NIN vs. SOAD)
10) Yold - Pretty Fly for a Poinconneur (Serge Gainsbourg vs. Offspring)
11) Brutal Redneck - Mashupers Must Die (Prodigy vs. Afrika Bambaataa)
12) João Brasil - Uma Partida de Umbabarauma (Jorge Ben vs. Skank)

Se quiser escutar a primeira da coletânea, aperta o play:




Este texto foi feito como colaboração para a Sopa Magazine nº5, que tá cada vez mais massa e linda:

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Big Bang Big Boom

Estreou na rede essa semana mais um vídeo sensacional do artista italiano Blu. Na ativa desde 1999, o grafiteiro, que hoje em dia vive uma rotina viajante cada época num canto do mundo, nunca fez questão de revelar sua identidade.

Passagem de Blu pelo Brasil em julho de 2007, em fotografia de Jacktwo

Conhecido no mundo inteiro depois de receber milhões de visitas com Muto, seu curta frame-a-frame feito nas ruas da Argentina, agora o sujeito se supera com este História do Mundo pessoal.

De dar medo:

BIG BANG BIG BOOM - the new wall-painted animation by BLU from blu on Vimeo.


Depois de vários shows acústicos, a banda The Ghost of a Saber Tooth Tiger (ou o O Fantasma do Tigre Dentes de Sabre) de Sean Lennon, sofreu uma metamorfose no estúdio e acaba de lançar um single de sua banda que ninguém conhece.


Jardin du Luxembourg tem duas músicas, uma baladinha e um cover de Serge Gainsbourg. Assim como o pai, Lennon gosta de gravar música com namorada. Já havia feito o cover de Je t'Aime (Moi Non Plus) com sua ex, Miho Hatori e agora, como tem essa bandinha com a namorada francesa, não dava pra passar batido sem cantar algo do bardo. Ah, namorada francesa...


Voltando ao assunto música, o produtor Mark Ronson participa da gravação tocando baixo e a diva francesa Mathieu Chedid faz os backing vocals. Aviso que a versão da música nem é lá grandes coisas, mas o clip é divertido.


segunda-feira, 28 de junho de 2010




Excelente e inspirador texto extraído do http://baixacultura.org/ . Muito obrigado por compartilhar esta pérola.

Escritor de no mínimo nove livros de ficção, pai do ciberespaço e do steampunk, tuiteiro, William Gibson contribuiu para uma reportagem de capa da revista Wired (de novo ela) em 2005. A matéria “Remix Planet” versava sobre o estado das recombinações até então, seja na literatura de Gibson, na música do Gorillaz, no cinema de Tarantino ou em outras diversas áreas que sempre tiveram referências explícitas e implícitas em outras obras. Em seu texto, o autor conta um pouco da influência que teve de outro William escritor, o beat Burroughs, e de sua visão da cultura remix. Novamente, não foi um texto fácil de se passar para o português, portanto se algum estudioso da obra dele aparecer por aqui, como a Adriana Amaral ou o Fábio Fernandes, por favor nos corrijam. É ano de copa, e mais grave ainda mês de copa, então estamos numa fase atribulada. A rica reportagem também trazia um gráfico mui interessante sobre a história do remix no século XX, conferível logo depois da tradução. Apreciem que mais coisa da revista vem por aí.




Confissões de um artista plagiador.

Quando eu tinha 13 anos, em 1961, eu secretamente adquiri uma antologia da Geração Beat – pressentindo, corretamente, que minha mãe não iria aprovar.

Imediatamente, e para minha grande excitação, eu descobri Allen Ginsberg, Jack Kerouac, e um William S. Burroughs – autor de alguma coisa chamada Almoço Nu, extraído ali com todo o seu brilhantismo cintilante.

Burroughs era então como um literato radical tal como o mundo tinha para oferecer, e na minha opinião, ele ainda detém o título. Nada, em toda a minha experiência de literatura até então, foi tão marcante para mim, e nada jamais teve um efeito tão forte sobre o meu senso das íngremes possibilidades da escrita.

Mais tarde, tentando entender esse impacto, descobri que Burroughs havia incorporado fragmentos de textos de outros escritores em seu trabalho, uma ação que eu sabia que meus professores teriam chamado plágio. Alguns destes empréstimos foram furtados da ficção científica americana dos anos 40 e 50, adicionando um choque secundário de reconhecimento para mim.

Até então eu sabia que este “método cut-up”, como Burroughs chamava, era central para o que seja que ele pensou que estava fazendo, e que literalmente acreditava que fosse semelhante à magica. Quando ele escreveu sobre o seu processo, os cabelos do meu pescoço se levantaram, tão palpável foi a emoção. Experimentos com fita de áudio inspiraram-no de uma maneira similar: “brinquedinho de Deus” foi como seu amigo Brion Gysin chamou o toca-fitas deles.

Sampling. Burroughs estava interrogando o universo com uma tesoura e um pote de cola, e a mínima imitação de outros autores não era considerada plágio.

Uns 20 anos depois, quando nossos caminhos finalmente se cruzaram, eu perguntei à Burroughs se ele ainda estava escrevendo em um computador. “Para que eu ia querer um computador?” perguntou ele, com evidente desgosto. “Eu tenho uma máquina de escrever.”

Mas eu já sabia que um processador de texto era outro dos brinquedinhos de Deus, e que a tesoura e o pote de cola estavam sempre lá para mim, no desktop do meu Apple IIc. Os métodos de Burroughs, que também funcionaram para Picasso, Duchamp e Godard, foram construídos para a tecnologia através da qual eu agora componho minhas próprias narrativas. Tudo o que eu escrevi, acreditava instintivamente, era uma extensa colagem. Finalmente o significado parecia uma questão de dados adjacentes.

Depois, explorando possibilidades do (assim chamado) ciberespaço, eu preenchi minhas narrativas com referências a um ou outro tipo de colagem: o AI em Count Zero [romance de Gibson, publicado em 1986, traduzido para o Brasil com o mesmo título] que emula Joseph Cornell, o ambiente de assembléia construído sobre a Ponte da Baía em Virtual Light [outro romance de Gibson, publicado em 1993, sem tradução para o português].

Enquanto isso, no início dos anos 70 na Jamaica, King Tubby e Lee “Scratch” Perry, grandes visionários, foram desconstruindo a música gravada. Usando um espantosamente primitivo hardware pré-digital, eles criaram o que chamaram de versões. A natureza recombinante dos seus meios de produção rapidamente se espalhou para DJs em Nova York e Londres.

Nossa cultura não se importa mais em usar as palavras como apropriação ou empréstimo para descrever estas muitas atividades. A audiência de hoje não está escutando tudo; está participando. Na verdade, audiência é um termo tão antigo como gravação, um arcaicamente passivo, outro arcaicamente físico. A gravação, e não o remix, é a anomalia hoje. O remix é a verdadeira natureza do digital.

Hoje, um processo interminável, recombinante e fundamentalmente social gera horas incontáveis de produto criativo (um outro termo antigo?). Dizer que isso representa uma ameaça para a indústria fonográfica é simplesmente cômico. A indústria do disco, embora não saiba ainda, tem seguido o caminho da gravação. Em vez disso, o recombinante (o bootleg, o remix, o mash-up) se tornou a característica central na virada dos nossos dois séculos.

Vivemos em um momento peculiar, em que o registro (um objeto) e a recombinação (um processo) ainda, embora brevemente, coexistem. Mas parece haver poucas dúvidas quanto à direção que as coisas estão indo. A recombinação é manifestada em formas tão diversas como a graphic novel de Alan Moore, A Liga Extraordinária, machinimas [imagens de games editadas como se fossem um filme] geradas com mecanismos de jogo (Quake, Doom, Halo), toda a biblioteca metastasiada de remixes do Grito de Dean, distorção de gênero fan fiction dos universos de Star Trek ou Buffy ou (mais satisfatório, de longe), ambos de uma vez, a Edição Fantasma sem JarJar Binks (som de uma audiência votando com seus dedos), tênis esportivos híbridos de marcas, felizmente transgressores de logotipo de salto em distância, e produtos como as figuras Kubrick, colecionáveis do Japão que são astutamente mascarados como desalmadas unidades corporativas, resgatados do anonimato através da aplicação de uma cuidadosa e agressiva pintura “customizada”.

Nós raramente legislamos sobre novas tecnologias que nascem. Elas surgem, e nós mergulhamos com elas em quaisquer vórtices de mudança que elas gerem. Nós legislamos após o fato, em um jogo perpétuo de pega-pega, tanto melhor quanto podemos, enquanto nossas novas tecnologias nos redefinem – tão certamente e talvez tão terrível como temos sido redefinidos pela televisão.

“Quem é o dono das palavras?” perguntou uma desencarnada mas muito persistente voz durante a maior parte da obra de Burroughs. Quem é o dono delas agora? Quem é dono da música e do resto da nossa cultura? Nós somos. Todos nós.

Embora nem todos saibamos disso – ainda.

O mais recente romance de William Gibson é Reconhecimento de Padrões [edição brasileira pela Aleph, tradução de Fábio Fernandes].




quarta-feira, 23 de junho de 2010

Escutar música num pedaço de chip com um fone. Há pouco mais de dez anos um colega me disse isso e achei coisa de ficção científica. Com o galope do mp3, myspaces e youtubes da vida, o mercado da música diminuiu e cresceu. Exatamente da forma que as gravadoras não queriam. E os ipods, simples pedaços de chips pra colocar música transformaram-se numa espécie de etiqueta com fone branco.

Os pequenos selos de música enxergaram antes das majors que disponibilizar os arquivos em mp3 de uma banda em ascensão ajuda muito mais que muita divulgação. Hoje, a caleidoscópica quantidade de estilos musicais e artistas, fez os nichos serem cada vez mais enigmáticos e o público menos pasteurizado em FMs que tocam as mesmas 40 músicas durante a semana inteira.

Analisando o modo como os artistas enfrentam o mercado e se adaptam livremente à ele, apareceu este documentário bacana feito com alguns artistas de São Paulo. Cerca de meia hora com Holger, Killer on the Dancefloor, Chernobyl, Xis, Thiago Pethit, Firefriend etc. E de gruja, músicas com parcerias atípicas destes artistas oriundos de diferentes estilos.


WE.MUSIC - COMO A WEB REVOLUCIONA A MÚSICA? from My PIX on Vimeo.



Database + Holger - This is an untitled song by wemusic

Killer on the Dancefloor + Thiago Pethit - Come Debbie by wemusic

Pristine Blusters - Vendetta (Instrumental Mix) by wemusic

Chernobyl + Xis - Pra que tudo se nada se leva by wemusic

Pristine Blusters + Firefriend - So Slow by wemusic


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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Rock Preto

Isso aqui eu ouvi e lembrei dos chegados Gurila Mangani e Matéria Prima. Gurila, te devendo aquelas fotos, Matéria, troco suas Nonada pelas Soma, heheh. Espero que curtam. Já ouviram antes?

Desde que o Run DMC juntou-se ao Aerosmith em meados dos anos 80 e acabou ressuscitando o dinossauro do rock -que já tava quase sepultado- com a regravação de Walk This Way, a junção de rap e rock deu liga. E era, apesar de ter tornado-se fórmula batida anos depois. De toda forma, a mistura provou-se algo com um Q de atemporalidade, mesmo cansando fácil. Ao menos quebrou a cara dos radicais insistentes de que isto da minha classe presta e aquilo que sua patota faz ruim.

Cypres Hill fazendo música com Sonic Youth e coisa do gênero? Foi quando o álbum Judgment Night saiu em 1993 só com essas ditas cruzas e muito fã de rap e de rock alternativo literalmente trocou de orelha. De fato, não é fácil conectar esses dois mundos de modo criativo e sincero. Pois essa trilha sonora de filme que ninguém viu ou não devia ver, ficou como um divisor de águas no amálgama em sons de preto com branco ou vice-versa.

A partir daí, durante um bom tempo, apareceu uma salada russa de bandinha metaleira trocando solo por beat-box, largando a virtuose instrumental por barulhinho esquisito, vide os adidas metal genéricos Korn-plágios. Ou banda de rap querendo virar metal - vide o próprio Cypres Hill ou Boo Ta Tribe. Cansou, né? Claro que teve muita coisa boa, mas nada pra você falar oh

E eis que esses dias, notei uma banda de rock velha conhecida da qual nunca fui muito fã, aparecendo com mais pujança por aqui no player. É o The Black Keys, que lançou um disco novo com uns dois bons hits recentemente - coisa incomum nessa onda de rock retro que assolou esse século pré-2010.

Daí, fui catar um disco que mistura rap com rock. É uma banda chamada Blakroc, lançada no final de 2009 e tem uns rappers famosos no meio. Aquela coisa de featuring que sempre rola no mundo dos mano, com uns roqueiros aí. tocando Fui ver, e os roqueiros eram justamente os caras do The Black Keys. Ganhou respeito, e o álbum do Blacrok dá de 10 a 0 no da própria banda.

Confere os vídeos. O primeiro é o videoclip de uma música que não tem no álbum, com Onyx ressuscitado. O segundo é o único clip do álbum do Blacrok e os outros, o making off das outras faixas da bolacha.

























Sei lá se eu vou botar o disco aqui pra vocês baixarem, seus...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

EP visceral e pesado do Grupo Porco de Grindcore Interpretativo


Eles começaram como o Skank, fizeram sucesso sob o nome de Jota Quest e hoje são como o Pato Fu. Essa poderia ser a história do Grupo Porco de Grindcore Interpretativo se, em janeiro de 2009, eles tivessem aprendido a tocar sanfona e cativado a tradicional família mineira com o Baião politizado de raiz. Ao invés disso, trilharam uma carreira de sucesso e hoje seduzem platéias por onde passam, seja na capital ou em festivais como o Bananada, em Goiânia, onde se firmaram como o primeiro e maior grupo musical de grindcore interpretativo tupiniquim do universo.

O sadismo dos filmes do cineasta gaúcho Sady Baby, responsável por clássicos como “Emoções Sexuais de um Jegue” (1986), foram a inspiração necessária para que essa banda pudesse salvar, através da chacota, a cena musical que se auto-depreciava. Dinossauro com um Beck Gigante (abril de 2010) é a prova disso. Visceral como um padre pedófilo, pesado como uma dobradinha e, ao mesmo tempo, suave e delicado como a primeira menstruação de uma cotia, o EP é obra de Porquinho (guitarras e vocal), Leo Pyrata (vocal) e Batista (baixo).

O disco é uma obra de arte, uma macumba pra turista sexual usar de trilha sonora em apresentação de powerpoint sobre os highlights do carnaval na lama, como explica o Manifesto do Samba-Grind-Delícia, lançado junto com o disco. Baixe, escute, mostre pra sua namorada e ajude a salvar o mundo.

Baixe aqui este lindo disco

Resenha macia feita pelo meu amigo Glutão (vulgo Danyboy), extraída do Mixsórdia

sexta-feira, 7 de maio de 2010


Colocar uma imagem na rede ou postar qualquer texto pela internet é uma tarefa corriqueira no cotidiano de qualquer pessoa hoje em dia. A partir do ponto em que há uma facilidade plena pra criar um endereço próprio - num blog ou algo do tipo - qualquer um está apto a fazer sua participação no mundo on-line de forma concreta e ter certo respaldo, desde que tenha algo a dizer.

Mas nem sempre houve uma terra de ninguém prática e barata como a internet para apresentação de idéias livres. Houve um tempo que fazer qualquer produção em papel era uma coisa de outro mundo. Na época do mimeógrafo e logo depois, do xerox, quem estava afim de mostrar o que pensa numa publicação caseira de papel, tinha que se virar. E o meio mais prático de se fazer isto, era numa mídia que pouca gente até hoje nem sabe o que é, o fanzine.

Quem me lê contando sobre esse tema e já tem estrada no assunto deve achar que digo isto como uma velha novidade requentada. Mas não, mesmo tendo feito um projeto experimental como conclusão de curso (TCC) em comunicação social em 2004 junto de meus amigos Daniel, Karl e Rodrigo, ainda hoje me assusto como diversas pessoas esclarecidas que nunca ouviram falar no termo. O tal caderninho montado a partir de textos, imagens ou poemas diversos com um tema específico - ou bem variado quese tornou mais raro a partir da facilidade de informação on-line.

Este tipo de publicação amadora começou a se difundir na década de 1930 nos Estados Unidos, através de sindicatos reivindicando direitos. Na mesma época, os fãs de ficção científica que não viam matérias sendo publicadas sobre seus livros e filmes prediletos na grande mídia, resolveram dar vazão à sua produção textual em revistas próprias amadoras de pequeno formato e tiragem. O campeão de xadrez e entusiasta da ficção científica Russ Chauvenet foi quem criou o portmanteau fanzine através das palavras fanatic (fanático) e magazine (revista) para definir este tipo de publicação não profissional já em 1940. Tudo era enviado ao mundo inteiro através de redes montadas através de trocas de cartas e continua assim - com menos intensidade - até hoje.

Com o surgimento do rock and roll na década de 1950 e o maio de 1968 pelo mundo, os fanzines tomaram um grande fôlego até sua forma mais potente na década de 1970 após a aparição do movimento punk. Para se ter noção da importância deste tipo de publicação para o movimento, muitos zineiros só consideram a existência do fanzine como se convencionou hoje a partir do punk. O nome do primeiro zine na categoria punk também tinha título pancadão, Sniffin' Glue, ou seja, Cheirando Cola, provavelmente uma alusão à uma música homônima do Ramones.

Os fanzines prepararam o terreno para o aparecimento da mail art, do e-mail tosco enviado à revelia e até mesmo da arte urbana, através dos stickers e da poster art - também são feitas trocas desses papéis pelo correio para serem pregados pelo mundo. Quanto à nossa linguagem, grande parte das gírias e abreviações usadas por usuários de computadores é derivada dos jargões praticados pelos fanzineiros. O copyleft, começou a ser debatido em diversos fanzines antes mesmo do mundo virtual. A estética suja usada que hoje vemos até mesmo em novelas juvenis idiotas é uma chupação do formato de publicação que qualquer pessoa faz em casa.

Os primeiros coletivos de blogueiros aqui no Brasil mesmo foram fundados por zineiros experientes – vide os nada modestos membros do Cardosoonline.

E Hoje, Alguém Ainda Faz Isso?

Todo mundo que escreve por prazer sem o intuito de ser remunerado é um zineiro potencial - vide este escriba aqui. A grande mídia sabe muito bem que muitas tendências musicais, de moda e comportamento são lançados por blogueiros – ou zineiros digitais – e obviamente diversos jornalistas sugam suas pautas desse povo nerd que não tem o que fazer além de escrever sobre aquilo que gostam.

Muitos jornalistas já foram zineiros ou leitores de zines e outros ex-zineiros partem para negócios na seara da cultura alternativa como donos de pequenas gravadoras, pequenas grifes após ter contato com um mercado possível através da correspondência. Grandes ilustradores, como Fábio Zimbres, Andre Dahmer e Allan Sieber tiveram seu começo através da zinagem.

Através do blog coletivo Zinismo, podemos ver que tem muita gente relutante no velho formato papel sim. Alegando serem de origem “autoral e independente, formado por uma confraria de fanzineiros separados pela distância física e aproximados pela era digital”, o blog está no ar desde o final de 2008 e em plena atividade, sempre com alguma novidade no tradicional formato xerocão muendo solto por aí.

Em Belo Horizonte tem um pessoal muito dispô, que é o povo do Grude Sujo, formado por Desali e Estandelau. Além de outros loucos esporádicos e sem periodicidade que publicam suas impressões em papel, como o zine A Zica, que está pra ser impresso por mim, Luiz Navarro e Marcelo Lustosa.

E pra terminar sem lero-lero, fiz uma coletânea hits inspirada nessa cultura e no livro Mate-Me, Por Favor, escrito pelo ex-zineiro Legs McNeil, logo, Kill Me, Please (canhotagem):



01) Richard Hell & The Voivods - Blank Generation

02) The Velvet Underground - There She Goes Again

03) Ramones - Now I Wanna Sniff Some Glue

04) MC5 - Kick Out The Jams

05) The Cramps - Human Fly

06) Iggy Pop & The Stooges - I Wanna Be Your Dog

07) The Dictators - California Sun

08) T. Rex - Chariot Choogle

09) The Clash - Garageland

10) Dead Kennedys - Police Truck

11) Misfits - Teenagers From Mars

12) Generation X - Dancing With Myself

13) The Gun Club - She's Like Heroin to Me


Texto feito para a http://sopamagazine.blogspot.com/ Nº 4:



terça-feira, 30 de março de 2010

Instituto Anuncia Álbum Póstumo de Sabotage para 2010

Daniel Ganjaman, integrante do Instituto, acaba de anunciar que um último álbum de Sabotage (1973-2003) finalmente vai ser tirado da gaveta. É grande a expectativa para o lançamento do disco do rapper, assim como do próprio coletivo Instituto, que havia anunciado uma bolacha nova desde 2009.

Confira a seguir, um vídeo com trechos da última sessão de estúdio de Sabotage, em 23 de janeiro de 2003, um dia antes de ser assassinado em seu bom lugar, o Brooklin. "O próprio inimigo é mais pobre do que eu, aí que dó", um dia antes de partir, fala sério?


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domingo, 21 de março de 2010

Cabaret Burlesque


André Burlesque passou sua molecagem infestando as oficinas da Lagoinha pra pegar os restos dos automóveis consertados no intuito de incrementar seus brinquedos. Logo, seus carrinhos de rolimã já eram os mais nervosos descendo as vielas do bairro. Daí, foi um passo pra ele virar negociante de quinquilharias. Tinha talento pra vender utilitários customizados que na verdade não passavam de lixo reciclado. Quando ainda era menor de idade, cansou desse ofício pra abrir um boteco.

Logo, a portinha de Burlesque virou o point da noite na Lagoinha e passou para o maior galpão do bairro, que tornou-se pequeno pro público que voava pras filas de entrada do seu inferninho. Em pouco tempo, seu estabelecimento partiu pra um terreno nobre da cidade e começaram a vir as criaturas noturnas mais plurais. Todo tipo de gente com o bolso estufado e também malandros, cortesãs, cafetões e caça-dotes.

Foi um passo pra que o agora Cabaret Burlesque se tornasse conhecido internacionalmente com o apelo de seu ambiente soturno e shows inusitados regrados a música de bom gosto. Superprodução, os melhores artistas que a cidade poderia receber, num deslumbre só. Foi daí que o ambiente desencantou pelo simples fato das orquestras de swing, jazz, mambo e barangas estarem especulando demais com a realidade.

Setlist:

01) Iggy Pop - King of the Dogs
02) Tom Waits - Jockey Full of Bourbon
03) Mohammed Rafi - Jaan Pehechaan Ho
04) Instituo Mexicano del Sonido - Arboles de la Barranca
05) Club des Belugas - Mambo Italiano (Dean Martin remix)
06) Fishbone - Shakey Ground
07) Bellevue Cadillac - Call of the Wild
08) The Puppini Sisters - Tu Vuo Fa L'Americano
09) Paris Combo - Si Mon Amour
10) Lewis Furey - Hustler's Tango
11) Big Bad Voodoo Daddy - Mr. Pinstripe Suit
12) Katharine Whalen - Want You Back
13) Serge Gainsbourg - L'Appareil a Sous
14) Woody Herman - Mambo Herd Part I (All Good Funk Alliance rmx)

Cabaret Burlesque materializa-se aqui.

quinta-feira, 18 de março de 2010

A Praia da Estação Recebe o Outono Fervendo

Desde meados de janeiro de 2010, durantes todas as tardes de sábado, Belo Horizonte assiste a uma das mais relevantes e originais ações de retomada do espaço urbano por um público sem rosto e cheio de vontade.


Após a eleição de 2008 e a ultrajante lavação de roupa suja em horário eleitoral sem precedentes na televisão - vide chute no traseiro e interferência daquele publicitário maquiavélico produzindo o comediante Tom Cavalcanti - o povo do Curral Del Rey assiste estupefato às ações do prefeito Márcio Lacerda. O nome de consenso escolhido pela inédita coligação numa capital brasileira entre PT e PSDB assumiu a prefeitura da cidade em 2009 minguando as verbas para a área cultural da capital mineira e fechou o ano com um veto a eventos de qualquer natureza numa das maiores praças da cidade - a Praça da Estação.


foto: Tamás

Acredito que a população nem tinha como esperar demais do senhor Márcio Lacerda, porém assistir ao senhor prefeito tirar o uso de um espaço público pelo poder do veto foi realmente nauseante. Estranho que desta forma, a autoridade citada passou por cima até mesmo da lei de uso do local, que sempre foi direito da população desde que a cidade fora criada, além do quê a Praça da Estação ganhou até um tal de boulevard fazem poucos anos.

Há males que vêm para o bem. E uns gatos pingados inconformados, através de redes sociais pela internet, começaram a se organizar para reclamar do acontecido. Tudo começou com um tímido passeio Vá de Branco pela Praça da Estação, porém a onda deu caldo mesmo foi com outra idéia esperta, referência a algo que o mineirinho mais sente falta na cidade - e não vai ser resolvido por político algum - a criação da Praia da Estação. O calor foi um norte, colocar o povo de sunga no centrão uma vontade escondida pra tirar a roupa no maior plano panóptico por onde trafega a tradicional família come-quieta.


Até quando o enobrecimento forçado do espaço público central de Belo Horizonte suportará o peso da vontade de uma dondoca que controla secretarias de turismo, cultura e até mesmo um bom bolo de nossas verbas museológicas?

Parece que o fato tornou-se uma pedra no sapato do político que este ano vai assistir de braços cruzados ao lançamento de candidaturas-nada-surpresa para o estado e para o Brasil tucano-petista. Ou seja, algum deles vai convidar esse candidato fabricado pra subir no palanque e perder voto? Páreo mole.


Engraçado que grande parte dos manifestantes nem vota - muitos nunca exercerão este ato na vida - e como considerá-los apolíticos? O bojo que a imprensa considera mera massa de esquerda festiva ultrapassou idade, orientação política e credo.

E agora, Ministério Público, algum promotor competente se habilita para poder encarar uma boa briga numa luta justa?


foto: Tamás


Relevante notar que no último dia 6 de março aconteceria na Praça da Estação um evento com as bandas U (U com trema, não achei a trema aqui no teclado agora), Graveola e o Lixo Polifônico, Dead Lovers e outras, que foi forçado pela Guarda Metropolitana de Belo Horizonte a ocorrer debaixo do Viaduto Santa Tereza. Tudo bem, as pessoas invadiram a Avenida dos Andradas pacificamente e o show ocorreu sem transtornos. Só que uma semana depois a própria prefeitura montou uma mega-estrutura na Praça da Estação para que no dia 14 de março ocorresse um evento que - no atual contexto - pode ser entendido como de caráter eleitoreiro, a Maratona Linha Verde. Com palco, gerador, banheiros químicos, a população flutuante desinformada que ali chegasse, mal saberia que ali no mesmo local ocorre uma censura velada ao direito de se expressar. E agora, vamos esperar o tsunami?

Taí o funk universitário feito pelo pessoal do Graveola - bem que as outras bandas da cidade podiam fazer uma coletânea com umas músicas sobre esse protesto. E deita no cimento:


Obrigado a Omar Motta pela inspiração.